Miopia tecnológica

Nunca me esqueço, à quase dez anos, em meu primeiro ano da faculdade de Marketing em que nos era apresentado o conceito de "miopia em marketing". Esse conceito foi ilustrado com um estudo de caso, apresentado uma empresa de transportes ferroviário que estava perdendo clientes. Os gerentes estavam seguros de seus trens eram muito bons e que seus preços eram justos. Nada estava sendo feito de errado.

Muito infelizmente, a razão ainda não tinha se revelado quando tentaram resolver o problema melhorando ainda mais seus trens. Melhoraram o mix de marketing. Mexeram no preço. Na propaganda e na comunicação. No conforto e nas facilidades para o usuário. Melhoraram os trens. Nada fez efeito e os clientes continuaram a diminuir.

Houve apenas um aspecto que foi negligenciado. E foi o aspecto mais fundamental do Marketing. Eles se esqueceram da razão principal da origem de todo o conhecimento de Marketing. Seu papel como empresa de transportes é oferecer transporte. E eles estavam oferecendo trens. O estudo de caso termina esclarecendo a situação: eles estavam perdendo seus clientes para as companhias aéreas. Não era oferecendo trens melhores e melhorando o acesso aos seus trens que eles iriam conseguir resolver o problema.

Consigo perceber uma situação muito análogo no mundo da tecnologia, e isso vejo tanto do lado dos usuários quanto do lado dos fornecedores de tecnologias. Ficamos muito vidrados em um nome mágico onde depositamos toda a nossa carga de confiança e esforço. Ficamos míopes, e só consiguimos enxergar isso. Enquanto isso, outras oportunidades e boas alternativas vão passando do nosso lado sem que nos damos conta.

Geralmente esta miopia vem acompanhado com alguma base teórica para justificá-la. Não utilizamos uma tecnologia porque era aquilo que inicialmente estávamos estudando (a verdadeira razão, a pessoa não quer aprender alguma coisa nova), mas porque "há muitas pessoas utilizando". Não utilizamos uma tecnologia porque é aquilo que eu comecei a estudar a pouco tempo (a verdadeira razão, não quero parar o que eu comecei para recomeçar algo novo), mas porque" é aquilo de mais avançado que existe hoje". Não utilizamos uma tecnologia porque nos sentimos confortáveis em adotar um framework que está tendo uma explosão de adoção (a verdadeira razão, nos sentimos confortáveis de surfar na onda), mas porque é o que aplica os conceitas mais novos de programação.

A adoção de uma tecnologia não pode ser pautar poucos critérios. É algo mais complexo. Mas nosso instinto é se prender à umas poucas coisas e carregar isso para deixar sempre debaixo do braço para quando alguém vir e nos questionar.

Claro que no meio do problema existe uma porção de arrogância, de comodismo ou de insegurança. É sempre ruim ter que se adaptar a uma situação nova e lidar com conhecimento novo, ou desistir no meio do caminho para seguir alguma outra coisa. Acima de tudo, não podemos nos esquecer que a tecnologia é um meio, e não um fim, e que o maior critério para a escolha de uma tecnologia deve ser as necessidades internas do projeto, pelo menos analisados no médio prazo.

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