Ressaca tecnológica

Vivemos uma grande enfervescência das tecnologias digitais nos últimos 10 anos. Ficamos maravilhados com as estatísticas do boom da adoção das redes sociais recentemente surgidas, como o Facebook, o Twitter, o Instagram e o LinkedIn. Ficamos impressionados com as muitas novidades que o Google estava inventando e disponibilizando sem custo algum para as pessoas e empresas utilizarem e alcançarem novos patamares.

Gurus de tecnologia nos embriagavam com termos que parcamente consguiam explicar o que estava acontecendo e se colocavam como capazes de prever as novas tendências para a qual todos nós deveríamos nos preparar.

De repente, parecia que podíamos procurar no mundo da tecnologia da internet a resposta mais eficiente para os problemas. Não só isso, caso não a entendêssemos o que estava acontecendo no mundo digital correríamos um grande risco de ficarmos para trás. O resultado: todo mundo virou um pequeno especialista de tecnologia web. É fascinante pensar que você pode chegar em qualquer lugar apenas com o acesso ao computador e algum conhecimento.

E finalmente, chegamos nos meados de 2016. Parece que todas as redes sociais invetáveis já foram inventadas, e o boom da adoção das comunidades chegou no seu teto, não tendo mais para onde expandir. E faz muito tempo que não vemos uma nova rede social aparecer por aí que venha ameaçar o status quo das outras.

Por incrível que pareça, muitas empresas tecnologicamente atrasadas não sumiram do mapa, com se podia imaginar que viesse acontecer. Por outro lado, muitas empresas que teriam seguido as tendências desse novo mundo não conseguiram se destacar.

E o mundo está virando novamente. Estamos saindo de um mundo em que todos nós precisávamos nos basear em um software da internet e estamos voltando para o hardware, em que os olhos se voltam para inventos como os smartphones e as impressoras 3d. Sobre softwares, no máximo os aplicativos para telefones celulares, mas é fato que depois da epifania do software na internet, agora estamos voltando para o hardware.

E novamente começam a aparecer os especialistas para este novo mundo. Mas desta vez estamos mais céticos - ou já desistimos de entender o que está acontecendo. Também, diferentemente de um website, a criação de um aplicativo de celular não é tão simples como a criação de um website. O website significa apenas postar a informação em um servidor, no mínimo. E nem sempre programação era necessária. Agora, para qualquer aplicação de smartphone é necessária um conhecimento para iniciar, desenvolver e finalizar o desenvolvimento de um aplicativo. Um novo boom para a utilização dos aplicativos móveis continua, mas não tão intensamente quanto foi para as tecnologias de web integradas.

Estamos vivendo uma certa frustração. Apesar de tudo, o mundo não se alterou tanto assim quanto pensávamos que iria se alterar - fora a sensação de parecer que não conseguimos acompanhar todas essas tendências. E estamos também um pouco desamparados, porque ninguém sabe direito para onde estamos indo.

Mas isso tudo não importa. Essa frustração só serviu para nos lembrar de que nossa capacidade de entender o mundo, apesar da idade do conhecimento, ainda está bastante limitada, parece que não evoluímos nisso. Que iniciar um projeto de software, apesar de não ter que colocar a mão em nenhum objeto do mundo físico, é mais complicado do que parece. Que em algum momento, precisamos saber falar com pessoas, pois precisamos do mercado e de parceiros de negócios para se integrar à nossa competência de lidar com o mundo digital para que um projeto tenha sucesso - e lidar com pessoas é sempre complicado.

E descobrimos que os nossos problemas não mudaram. E nem vão mudar. Se o mundo da tecnologia em algum momento pareceu uma saída conveniente para os problemas, descobrimos não é mais conveniente de que as outras alternativas.

Os computadores e softwares permitiram aumentar muito a capacidade de empoderamento pessoal. Mas não a ponto de nos tornarmos independentes dos outros. Ainda sim um grande projeto precisa de uma pluralidade de competências que precisam se agregar e que geralmente se unem através da união das pessoas.

Por um breve momento, pensamos que todas as questões poderiam ser resolvidas apenas com um software de computador. Mas essa nossa frustração foi boa para podermos relembrar aquilo que realmente é importante.

Todos nós estamos à procura de uma nova resposta. No campo da tecnologia, o mundo está voltando para o hardware. Mas paralelamente à isso, está havendo um movimento em que as pessoas estão tentando se reencontrar. A explosão de espaço de coworking é o reflexo desta tendência. E mesmo àqueles que ainda estão procurando uma resposta na tecnologia, também já refletem outra tendência: a resposta não está mais em um software, mas em uma startup. E uma startup é uma coisa muito mais complexa do que um software. Especialmente porque essa necessidade das startupers faz com que as pessoas, além de voltar seus olhos para tecnologia, voltam seus olhos também para a comunicação com outras pessoas, para que possamos angariar não só sócios que tragam uma visão alternativa e habilidades complementares, mas também com os clientes que darão a renda para a empresa, resolvendo uma de suas necessidades. E lidar com pessoas ainda é a coisa mais importante e mais complicada para se fazer. E em um mundo cada vez mais populoso, essa questão será ainda mais importante, apesar de toda a tecnologia que já está entre as pessoas.

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