A volta de quem não foi e a importância do foco

Hoje encontrei umas faturas do começo do ano de 2009, nos primeiros meses em que se coincidiu com meu primeiro trabalho regular remunerado, quando era bolsista.

O valor total era uma cifra perto (mas não chegava) de estonteantes R$ 100,00, e ainda o banco era cara-de-pau de me oferecer, logo em seguida, um parcelamento com a igualmente estonteante quantia mínima em destaque de 16 reais e alguma coisa...

Deixar as cartas dessas faturas, juntamente com outras cartas acumuladas em uma gaveta de meu apartamente já um tanto abarrotado de outras coisas guardadas mostra um hábito ruim de não dar atenção à coisas "menos importantes".

O mais importante é estudar e trabalhar. Logo, checar e descartar as cartas antigas para liberar espaço acaba tendo uma importância secundária. Resultado: cartas de até 7 anos ocupando um local que não precisava ocupar.

Mais importante (e talvez mais representativo da nossa geração): é a falta de foco para sentar e terminar com uma tarefa. A uns meses anteriores, tinha feito a mesma atividade. Mas antes de terminar de limpar todas as minhas cartas resolvi deixar para terminar essa atividade para depois, já que estava demorando demais. Hoje fui novamente tentado por essa vontade de postergar, mas diferentemente da última vez, resolvi vencer essa vontade e, finalmente limpei tudo. Calculo que isso demorou mais de uma hora, mas a tarefa foi completada.

Há muitos tipos de atividades que precisamos fazer em nossas vidas. Algumas mais importantes e outras menos. Mas todas precisam ser feitas em algum momento.

O que mais me atrapalhou para isso foi a falta de foco. Apesar de conseguí-lo em algum momento, se perde quando a atividade se torna um pouco tediante, quando começa a demorar mais do que esperamos ou quando encontramos alguma dificuldade adicional.

Fato é que há muitas atividades que precisam ser realizadas e que não o são por falta de foco. No meu caso particular, a expectativa de dificuldades também é algo que bloquei o começo da realização de uma atividade.

O mais revelador do final desta atividade que fiz foi o seguinte: pode até ser que as costas doam um pouco por ficar mais de uma hora sentado em uma cadeira para fazer uma atividade tediante, mas terminar essa atividade é mais fácil do que parece. E um tanto gratificante também. E esperançoso na medida em que você vê alguma coisa na sua vida andar, sendo que se passaram alguns anos parado.

Estou tentando alterar alguns hábitos na minha vida para que ela não seja tão estacionária:

  • Não tenha medo de começar uma atividade que você esteja postergando. Pode até ser que ela seja muito tediante de se fazer, mas é muito recompensador ver que ela está sendo cumprida.
  • Não páre diante de uma dificuldade ou do tédio.
  • Não subestime uma tarefa de importância secundária.
  • Não tenha medo de gastar uma parcela do seu preciso tempo livre para descanso para realizar uma atividade de importância secundária.
  • Gaste um tempo de seu dia para organizar suas finanças. Isso é uma atividade tediante e dolorida na medida que nos põem diversos problemas que andamos postergando. Mas é algo que melhora todo o resto.
  • Invista em novas atividades para turbinar o seu cérebro, como por exemplo, ler sobre Mikhail Bakunin (vou ler a página da Wikipedia dele daqui a pouco).

Faço parte da geração que é filha de pessoas que construíram o mundo como conhecemos hoje. E com exceção da atitude política medíocre e perigosa que vemos nas redes sociais de hoje, eu gosto do mundo que temos hoje. O século XX foi o mais dinâmico da história da humanidade e justamente por isso, também pela primeira vez na história da humanidade, maravilhou aquilo que a humanidade concebeu como "futuro".

No meio dessa segunda década do século XXI, vejo que esse brilho sobre o futuro está apagado, boa parte por culpa da minha geração que não sente mais a obrigação de construir nada. Ela roubou o gigantismo da geração dos nossos pais, que continuou focada e cheia de valores, e se mantida humilde em tudo aquilo que fez. E nós, que não construímos nada, nos achamos tão gigantes quanto os nossos pais e já saímos por aí querendo privilégios e escaladas rápidas em nossas carreiras profissionais. E o resultado, na medida em que nos aproximamos da idade adulta e naquela idade em que nossos pais já tinham uma vida consolidada, é uma legião de frustrados que se sentem injustiçados e roubados.

Atrás de nós, vêm uma geração que viu todas as desgraças consolidadas, vindas por culpa dessa minha geração que foi demasiadamente isolada pelos problemas que todos devem sofrer na caminhada, justamente pelo amor que os pais da geração de construiu tudo teve com seus filhos para protegê-los. Só que essa geração está sem um "manual de sobrevivência". O mundo mudou muito rápido e ninguém sabe orientá-los como devem se portar.

Mas há duas notícias boas para essa nova geração: primeiro, eles não têm mais como serem mimados como minha geração foi. Logo, apesar da expectativa de sofrerem mais, serão obrigados a retomar a grandiosidade da geração consolidadora dos seus avós, ou os nossos pais. A segunda notícia boa é que eles estão no ápice da democratização da informação. Eles já têm desde cedo o máximo do acesso da informação possível para acharem o seu caminho. Some-se a isso o fato de serem mais inteligentes que as gerações anteriores (inclusive mais daque geração que pertenço). Nesses termos, fica até difícil de imaginar tudo aquilo que podem fazer...

Acredito que o marasmo protagonizado por minha geração pode ser explicado em boa parte por uma expressão muito simples: falta de foco. Quero ser grandioso, quero imitar o melhor que protagonizou a geração construtora dos nossos pais, que tinham muito menos que temos hoje e que fizeram muito mais. E também não quero ser passado pela geração vindoura.

Gastar pouco mais que uma hora para limpar as minhas cartas antigas pode parecer uma eternidade para a minha geração que espera fazer outras dez coisas (geralmente mais empolgantes) no mesmo dia. Mas se você pensar o que era isso a 30, 40 ou 50 anos atrás, isso poderia ser meramente o tempo de decidir ler Mikhail Bakunin e abrir o livro na biblioteca. Hoje precisamos apenas ligar o computador e acessar a Wikipedia. Hoje, a falta de foco nos impediria de ler Bakunin, mesmo isso representando sacrificar poucos minutos do dia. Há 40 anos atrás, dificuldades muito maiores não impediam de se realizar essa e muitas outras atividades. E acredito que é isso que separa a grandiosidade da geração dos nossos pais da mediocridade da geração da qual pertenço.

Acredito na mutabilidade das pessoas. Na capacidade de evolução e da mudança das pessoas. Se por um acaso eu pertenço a uma geração que desenvolveu atitudes infantis e medíocres e eu incorporei parte disso, em minhas escolhas individuais, decidi que não quero continuar assim e por isso vou seguir as minhas próprias dicas para a mudança de atitude e sair do marasmo. Talvez outros que já fugiram da tentação de se fazer de vítima e dizer que está sendo injustiçado e roubado pelos outros estejam neste momento tomando a minha mesma atitude, e assim espero. Vou cuidar para que a falta de foco não seja mais um problema, pois isso tem sido um problema muito subestimado.

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